Que viajar tem muito de soltar e de largar as amarras, eu sabia. Que as suas contingências podem gerar epifanias incríveis, também! É, aliás, por isso que viajar é tão intenso e um dos melhores investimentos para nos descobrirmos a nós próprios, enquanto descobrimos o Mundo. Em viagem ganhei consciência que transmitir sensações é quase impossível, seja com palavras, imagens, ou sons, por ser uma experiência pessoal. Veicular a ideia de que disponibilizaria aqui mesmo os meus sentidos para serem inspecionados e as sensações armazenadas em mim para serem sentidas e experimentadas, com o intuito de encorajar quem se eleja a partir ao encontro do seu próprio endereço, isso é o que me proponho fazer agora.
Nos dois dias da descida do rio Mekong em “barco lento” desde o Norte da Tailândia até Luang Prabang, no Laos, conheci um grupo de pessoas que ficaria na minha vida: um Americano que vai ser astronauta, um inspirador casal Australiano em viagem há dois anos, um Finlandês maduro e alternativo, uma cantora Inglesa, um Italiano de boas famílias muito divertido, uma miúda Suíça de 19 anos a viajar sozinha há meses, um outro Americano que tem um porco como animal de estimação e três Franceses aparentemente empertigados que gravavam um documentário, entre eles o Theo, que parecia saído da prateleira de estereótipos da minha imaginação:
- Faz “biquinho” ao falar um débil Inglês pelo qual jamais se desculpa,
- É um anarquista reacionário, inacreditavelmente culto para a sua idade,
- Tem o charme irritante de um cool look em qualquer circunstância, apesar do absoluto desleixo com a imagem e até com higiene pessoal,
- É temperamental, complexo, melancólico e um romântico incurável.
Com este heterogéneo grupo de pessoas vivi muitas aventuras, e uma desventura, ao longo de um período improvavelmente longo. Viajamos juntos sensivelmente um mês, e à mediada que íamos deambulando livremente Ásia abaixo, quais ciganos errantes, os serões davam lugar ao que chamo de “análises sociológicas caseiras” cada vez mais apaixonantes. Debatíamos questões existenciais e explicávamos as nossas culturas e respectivos contextos sociais, que apesar de comparativamente às dos lugares por onde íamos passando serem parecidos, eram bem díspares. Em comum tínhamos o facto de, conscientemente ou não, andarmos à procura de algo, e de todos ali estarmos dispostos a abdicar do que quer que tivéssemos para adoptar qualquer outro lugar como morada, ou qualquer estilo de vida que nos realizasse. Estávamos desprendidos dos nosso contextos prévios, culturais e materiais, e disponíveis para soltar também o contexto atual, e aquilo era um ponto em comum muito marcante. Eu já tinha tido pontos em comum marcantes antes, objectivos de vida, visões, e estas relações eram diferentes do que eu até então estava habituada; pautavam-se pelo desapego, e estávamos também desapegados uns dos outros. Sabíamos que inevitavelmente iríamos seguir caminhos diferentes e que poderíamos jamais voltar a ver-nos. Apreciávamos cada momento e o presente era o único que nos importava.

O “slow boat” no rio Mekong, Laos (créditos: Liliana Ascensão)
Com o Theo era ainda mais especial pois certo dia interessou-se pela imagem de Fernando Pessoa no meu passaporte, e então falávamos também de poesia, de fado e de emoções. Para ilustrar o que queríamos transmitir trocávamos canções e poemas, que procurávamos traduzir do Português ou do Francês para Inglês, e alimentávamos inebriantes conversas espirais sob lindos céus estrelados, como sugere o clichê. A barreira linguística era só mais uma delícia nessa missão impossível de entrar dentro das percepções e emoções do outro, e que em mim se manifestou em inteirar-me do meu desprendimento também do meu idioma materno. Por este dias falava-o pouquíssimo e era capaz de abdicar dele, até para pensar. Comunicar nem tinha de ser em Português, nem tinha de ser com palavras, que às vezes só me complicavam a vida, como quando aparentemente em Sapa disse que sim a comer baratas. Foi nesta altura que descobri o poder das bolas de sabão para interagir com crianças, em vez de emitir o que para elas seriam só sons estranhos, e a comunicação não verbal até aí inconsciente passou a ser o meu dia-a-dia consciente.
Deixei o grupo em Siem Riep no Camboja, que eventualmente se dissipou também, quando a minha amiga Joana se juntou a mim vinda de Portugal nas suas férias. Quando ela voltou eu prossegui viagem novamente sozinha, e mais de um mês depois de os ter visto pela última vez, cheguei a Hanói no Vietname coincidentemente na véspera da partida dos Franceses. Estava bem consciente dos meus sentimentos de pertença, pois tinha andado numa vibração familiar, e as contemplações ideológicas reativaram-se nessa noite. Ao despedir-nos, eu e Theo concordámos que cartas seriam a forma mais adequada de honrar e perpetuar o fado.
Ver também: Na Índia, aos meus pés

Vista sobre o rio Mekong, Laos (créditos: Liliana Ascensão)
Escrevi-lhe de Macau, e várias semanas depois contactou-me pois tinha acabado de receber a minha carta e queria escrever-me de volta. Eu estava no Panamá, a minha morada oficial era em Portugal onde eu suspeitava que não chegaria nem dentro de um ano, e o único sítio onde eu sabia que ia passar seria um Ashram no lago Atitlan. Acontece que naquela localidade não existem moradas, e nem a Guatemala tem um serviço de correios. Eu não tinha morada para receber uma carta e não só estava bem com isso, como a sensação era libertadora. “Podes sempre vir ter comigo onde eu estiver“ disse-lhe. Respondeu que esperava ir trabalhar algures por África brevemente. “Apareces? Também não me parece que terei uma morada”, acrescentou, e rimo-nos descontraidamente. Era desapego, era a primeira vez que eu o experienciava conscientemente enquanto ele me percorria, e seria essa a tal sensação que partilharia de bom grado com quem a pudesse experienciar. É idêntica à leveza de uma doce brisa que sopra enquanto apanhamos raios de sol quentes nestes primeiros dias de primavera. Vem, traz frescura, e vai.

Conversas revolucionárias entre viajantes, Camboja.
Algum tempo depois fiquei sem telefone e durante dois meses não comprei outro. Sem morada nem telefone, eu mesma duvidava se ainda existiria para o Mundo, e recorrendo à velha máxima “se está(s) no facebook, é porque é(s) verdade “ ia consultando de vez em quando a minha página. Em boa verdade, não era só por mim; o desapego unilateral pode deixar gente preocupada connosco. A minha família não apreciou particularmente este súbito incorporar de liberdade e eu não me consegui desligar da eventual consequência disso, além de sentir que “somos responsáveis por aquilo que cativamos”. Foi útil, e reconheço algum apego a esse endereço virtual, qual portal mágico para chegar a quem está em movimento ou a lugares fisicamente longe. Foi por via dele que certo dia o Theo me disse “há muita poesia em ti”. A viver sérias resistências à ideia de estar novamente em morada fixa, aquilo chegou-me como música: a poesia habita-me, e eu própria sou a morada.
Liliana Ascensão é líder de viagens na The Wanderlust, fica a conhecer alguns dos seus roteiros.
