Em 2008 decidi deixar de acompanhar noticiários, decisão que mais tarde alarguei à de não ouvir rádio, ver ou ter televisão, nem seguir pessoas que comentam política e futebol nas redes socais, e que mantenho até hoje. A explicação é simples: incompatibilidade dos inícios da minha carreira executiva, cheia de esperança e ideias expansionistas, com o auge da crise do “sub-prime”. Por um lado, aquela decisão, que gerou irónicas discussões por eu não estar mais disponível para participar em discussões, era uma forma de procurar um ambiente mais positivo, e por outro era o resultado de eu não saber como reagir ao facto do único paradigma social que eu conhecia estar a dar claros sinais de falhanço. Sentia-me suplantada pela quantidade de informação que era preciso esquadrinhar para poder construir uma opinião sobre o estado do mundo, e desisti. Adoptei a estratégia de fazer por deixar uma pegada ambiental e social pequena, e apenas na minha vida pessoal, sendo o mais silente possível quanto a tudo o que eu via na sociedade que me revolvia as entranhas. Vivi assim longos anos, alegremente descobrindo que o facto de eu não querer saber o que se passava pouco ou nada interferia com o que se passava, e sentia-me aliviada da responsabilidade: como eu não sabia, eu não tinha nada a ver com isso, e o que quer que acontecesse no planeta, não era culpa minha. Até um dia, numa viagem. Claro!
Estava no Nepal, e numa sequência de acontecimentos aleatórios tornei-me próxima de membros da banda Mukti & The Revival, os Xutos & Pontapés locais, e acabei numa pequena road trip com eles. Nesse dia dei por mim sentada a uma mesa, já bem alta a lua, num qualquer restaurante de beira de estrada nos Himalaias com um grupo de veteranos do rock, a dar opiniões ora sobre o alinhamento musical para o dia seguinte, ora sobre como a situação das crianças de rua poderia ser vigiada. Tais opiniões, baseadas em coisa nenhuma, a serem atentamente escutadas por aqueles homens fizeram-me dar conta do privilégio em ter nascido Europeia, branca e no século XXI. Quantas mulheres na minha ascendência terão desejado partir à exploração e estar ali no meu lugar mas, porque eram propriedade ou do pai ou do marido, a única forma era fugindo? Quantas terão tido vontade de dar opiniões à toa, e mais importante, quantas delas terão deixado pensamentos realmente úteis por dizer? E quantas mulheres viverão isto ainda hoje, porque o seu género, raça, nacionalidade, regras de conduta ou condição social as limitam? Uma Nepalesa provavelmente não seria ouvida naquele contexto, mesmo que o seu conhecimento fosse mais amplo do que o meu, pois aquele é um contexto desadequado para elas.
Ver também: O desapego, e a poesia de se ser a própria morada
Ao inteirar-me do privilégio dei-me também conta da seriedade que a minha liberdade contém. Tive percepção de como o facto de ter tido uma educação que me permite expressar-me em vários idiomas, que ter acesso e conhecimento de meios digitais para chegar a milhares de pessoas, que me poder movimentar livremente pelo planeta com um passaporte que é bem vindo em todo o lado, tudo isto compreende uma responsabilidade e aporta uma missão. Naquele momento inteirei-me, e integrei, como eu posso chegar aos lugares onde aquelas mulheres não podem, e dizer o que elas tem de calar. Foi um estalo de consciência e realidade, mais um, outra vez quando em viagem, descontextualizada e enquanto exposta à diferença cultural e ambiental.
Andava a resistir às notícias sobre o mundo, e acabara por ir vê-las live broadcasted, entre as quais, desigualdades humanas e ataques ao ecossistema e biosfera É também isto que a viajem nos mostra, se estivermos disponíveis para ver, e sentada naquela mesa de rock stars vi como eu posso mais facilmente do que outros difundir uma mensagem, na expectativa de que gradualmente algumas das tais más notícias mudem. Isso deu um sentido e uma intenção específica à minha comunicação, e até existência. E sou muito grata pelo estalo! Acreditar no engodo de que o que eu faço só a mim me diz respeito é ingénuo, sei que há tentáculos em todas as minhas ações e uma intrínseca relação entre todas as coisas. Pelo mesmo motivo, convencer-me que só eu me digo respeito é outra falácia, que até então eu ignorava. Acreditava que se eu fizesse por ter um impacto mínimo já cumpria a minha parte, e que não tinha que fazer nada quanto aos outros. É em certa forma verdade, porque eu não tenho que fazer nada. Só que eu posso e há quem não possa, e há uma pesada consequência destes ganhos de consciência espontâneos: há coisas que jamais são não vistas, e eu jamais deixei de ver que estamos aqui juntos.
Entretanto ganhei também uma visão mais madura sobre como o poder serve para mudar as notícias. Os grandes influenciadores e decisores, figuras públicas, políticos e corporações, têm um impacto muito mais imediato e abrangente do que o comum mortal, ainda que europeu, educado, do séc. XXI. Hoje continuo indisponível para investir a energia necessária para compreender toda a situação geopolítica do mundo e continuo pouco interessada em colaborar com grandes multinacionais, e parei de lhes resistir. Se insistirmos na ideia de que os políticos são corruptos e que o poder é vicioso, será isso que iremos perpetuar, pois poucas pessoas de bem estarão disponíveis para adoptar essa reputação. Hoje veiculo a ideia de que há pessoas investidas no benefício de todos por toda a parte, e agradeço de coração a todas elas. Continuo a apenas viver as notícias, ao vivo e a cores, por onde me for possível pelo mundo fora.
Liliana Ascensão é líder de viagens na The Wanderlust, fica a conhecer alguns dos seus roteiros.
Fotografia de capa de Tânia Neves, Kagbeni, vila dos Himalaias.
