Estou no aeroporto e à minha volta existem pelo menos 6 cartazes que dizem “Italy loves food!”, o que poderia muito bem resumir a minha viagem!
A vida faz destas coisas, e há uns anos aconteceu, que sem eu saber como, ganhei um irmão italiano, o Matteo. Depois daquelas muitas promessas que fazemos, “Um dia vou-te visitar!” estava mais do que na hora, fiz as malas e fui! Ficar com um amigo que calorosamente me chama de irmãozinha, tornou os contornos desta aventura numa viagem familiar e gastronómica. Umas horas depois de chegar a Itália estava sentada à mesa com um enorme pequeno-almoço à minha frente e todos os planos incluíam provar comida. Tentei resistir, mas rapidamente percebi que ia ter a minha própria versão condensada de Comer, Orar e Amar (daqui salto a Índia e vou para Bali) e que o melhor era abraçar esta relação.

Catedral de Milão.
A visita por Milão fez-se de plano em plano para almoçar, provar cafés, ir ao Luini comer panzerottes, comer gelado ou ir às compras para o jantar. Os monumentos foram claramente, um aspecto secundário da minha viagem em Milão.
Contudo, isto atingiu um outro nível quando visitámos a mamã. Chegámos a casa, com o típico cumprimento, “Ciao”, e ainda antes de eu ter tempo para pensar já estava sentada à mesa com aperitivos à minha frente. Conseguia sentir o pequeno-almoço ainda no estômago, mas não havia nada a fazer.
Felizmente, trouxe reforços! Um amigo belga com muita experiência nisto das refeições familiares em Itália, juntou-se a nós. Enquanto se ultimavam os preparativos na cozinha, o Joost teve a bondade de me fazer um briefing quanto às boas maneiras italianas, ou “como cair nas boas graças da mãe do teu amigo italiano!”. Percebi, naquele momento, que numa só refeição o meu estômago ia duplicar e que não ia voltar a sentir uma ponta de fome naquele dia. Vou resumir o rol de regras de etiqueta, nunca deixes nada no prato! E se queres mesmo que gostem de ti, rapa o molho com pão.

Lago de Como no Norte de Itália.
Entre o meu fraco italiano e o inexistente inglês da mãe do Matteo, a pergunta que se repetiu foi “Ti piace?”, à qual dei sempre, mas sempre a mesma resposta: “Gosto multo!” acompanhada do gesto auxiliar, que incluí levar o indicador à bochecha e rodá-lo. Esperava convencer a mamã que gostava mesmo muito e que não comia mais porque não conseguia, mas seguiam-se ordens para comer pão, queijo, para repetir a dose, para comer a terceira sobremesa… Tentávamos todos controlar a loucura, eu trocava olhares sorridentes com o Joost e deliciava-me com este free pass para comer com paixão.
A experiência é mais ou menos como levar com colheradas de amor, pela garganta abaixo! Uma mistura entre o amor e o regime militar.
Em conversa chegámos a essa hipótese, que talvez esta seja mesmo a forma de demonstrar amor mais natural para uma mamã italiana.
Depois de uma breve passagem por Lugano, na Suiça, voltámos a Como e a minha missão de não comer a tarde toda para guardar espaço para as pizzas do jantar, caiu por terra com doses de tarte devidamente repartidas e colocadas ao nosso lado enquanto descansávamos no sofá e ouvíamos a chuva a cair lá fora. É difícil descrever o quanto me senti em casa, calma, quente e em paz. O quanto me senti parte da família.

Panzerotti, Luini, Milão (créditos: Paola Mirele).
Passados uns dias, na última noite italiana, enquanto caminhava para ir jantar, olhei para a gelataria do Giuseppe, napolitano em Milão, vizinho da casa onde morei estes dias. O Giuseppe faz gelados divinais e recebe-nos sempre com um sorriso de orelha a orelha que acompanha o simpático “Ciao!”.
“Gelato?” perguntei ao Matteo e à Antonella. Olharam-me como se estivesse louca! “Gelato!” Fomos comer gelado e daí seguimos para o restaurante.
O ritmo seria absolutamente insustentável, as saladas e as sopas já chamavam por mim, mas foi maravilhoso viver a paixão italiana por comer e por gostar de comer!
Viajar? Viajar também é isto! Para mim, poucas coisas são tão desconfortáveis quanto a mudança de ritmo alimentar, ou dizer que gosto de comida. Viajar, aqui, foi permitir-me a ser livre quanto a algo que passamos o tempo a vigiar.
Obrigada, Itália!
Viaja de forma autêntica com a The Wanderlust!
