Viajar bastante pode significar, entre outras coisas, muita diversidade entre os lugares que se frequentam. No meu estilo de vida actual, vario frequentemente entre estadias em sítios retirados, selvagens ou na natureza, cidades funcionais e culturalmente estandardizadas, e gigantescas urbes ou lugares históricos. Quando transacciono de uma estadia mais longa, nos meus padrões bastantes dinâmicos, de um destes para outro, nas primeiras 24 horas apanho-me muitas a vezes a questionar-me como é que é possível viver-se feliz “num lugar assim tão _______ ” e preencho conforme aplicável: remoto, rural, populoso, pacato, cheio de regras, barulhento, etc. É a minha reacção natural à necessidade de me readaptar ao novo ritmo, ao novo fluxo e energia do lugar onde chego, e um certo apego ao conforto que começava a sentir no pouso anterior, que inicialmente também me parecia “tão ___”. Esta contração em viagem é uma das minhas idiossincrasias mais interessantes, já que viajo precisamente para promover expansão, e quando me apanho nestes momentos respiro fundo e repito para mim que sei que vai passar. Isso ajuda a amenizar o desconforto inicial de não me sentir integrada, e onde funciona particularmente bem, e com um paladar especial e quase xamânica, é no caos.
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Recentemente cheguei a Marraquexe vinda de uma imersão na natureza da Serra Nevada. Atordoada com o impacto de tanto borbulhar de vida humana nos meus sentidos senti a tal contração que já conheço. “Já não me lembrava de como este lugar é caótico. Caótico, caótico, ca-ó-ti-co…” Deixei a palavra ecoar e bastou encher duas vezes os pulmões de ar impregnado de anarquia, que o caos que vive em mim começou a sentir-se em casa, e desobstruído e eu a relembrar-me que o magnetismo para habitar lugares históricos como Marrakech na realidade não se explica, vive-se apaixonadamente. O caos é apaixonante porque pode providenciar muita clareza. Para mim, ao contrário da ordem e da estrutura baseada em necessidades de vida em sociedade, no caos há lugar para os dois polos de cada espectro e para tudo o que há pelo meio de cada dualidade, e isso a mim permite-me experienciar muita liberdade de pensamento e de acção, e unificar nele partes de mim.
E então respirei Marraquexe nos seus espectros: intensa de emoção e temperamento infundidos com contenção e maestria mouriscas. Aquela contração inicial era um convite à expansão, a perder-me nas ruas serpenteantes e labirínticas da Medina, onde o imensurável poder da energia que irradia de cada contacto interpessoal é exponencialmente aumentado. Ali os encontros acontecem espontaneamente e a vida floresce inconscientemente, em absoluto contraste com o eco dos chamados das mesquitas para a oração e o seu irrecusável convite à introspecção. Ao mesmo tempo, e logo ali ao lado vive o espírito nómada dos Berberes e a iminência da aventura, e oásis de calma no horizonte alaranjado para onde o vento do deserto sopra o amarelo das longas filas de dunas. O caos, e o céu infinito de possibilidades, estrelado na noite escura de mistério do deserto, e finalmente o refrescante apaziguar da menta do meu primeiro chá na praça Jemaa El-Fna e a certeza de que tudo está bem. Ahhh, inspira caos, expira calma.
Liliana Ascensão é líder de viagens na The Wanderlust, fica a conhecer alguns dos seus roteiros.
Fotografia: Praça Jemaa El-Fna (créditos: Miriam Augusto)
