Logo após o Big Bang apareceram todos as partículas que alguma vez existiriam no Universo e que comporiam todas as coisas ainda por vir. Essas partículas formaram estrelas que, após morrerem, libertaram átomos que viriam a criar novas estrelas, planetas e outros corpos celestes. Um desses corpos foi o nosso planeta. Na Terra, átomos de umas coisas misturaram-se, juntaram-se, para criar coisas novas. Sem vida. Coisas essas que se juntaram para criar células. Coisas com vida. Estas células com vida, juntaram-se para criar seres vivos. Algo maior que a soma das partes constituintes. Apareceram fungos e plantas e animais e tudo o que vive. Dentro do grupo dos animais apareceram invertebrados e peixes e anfíbios e répteis e aves e mamífero e primatas e nós. Eram estas ligações e emaranhados em que eu pensava enquanto observava bonobos num dos lugares mais remotos do planeta.

Fazia quase 9 meses que estava na floresta tropical da República Democrática do Congo. Vivia praticamente sozinho num acampamento, juntamente com alguns trabalhadores locais, em condições espartanas: comida racionada; água filtrada; banhos de rio; eletricidade dependente da meteorologia e das condições do painel solar; comunicações 2 ou 3 vezes por semana através de uma máquina que enviava sinais de rádio apenas quando a Camada D da Ionosfera estava ionizada (a confusão do leitor ao ler esta linha poderá ser igual à minha quando olhava para o céu tentando perceber se podia enviar emails).
A esta situação acrescente-se o factor do isolamento. O outro acampamento ficava a 3 horas de distância, atravessando pântanos e vales; a aldeia mais próxima ficava a 5 horas a pé, tendo de se atravessar 3 rios (2 deles com água pela cintura). Aquando da minha chegada, tive de apanhar um avião até Kinshasa; uma avioneta para a floresta e caminhar 3 dias, para chegar aquele local. As distâncias são esmagadoras. O trabalho consistia em encontrar e seguir uma das espécies de grande símio mais elusiva e rara do planeta.
O bonobo (Pan paniscus) é, juntamente com o chimpanzé, o nosso parente mais próximo. Apesar de eu estar praticamente sozinho, foi com um sentimento de proximidade e familiaridade que os encontrei na floresta. A maneira como as fêmeas agarravam os filhos, o momento em que dois dois bonobos davam as mãos ou partilhavam comida, a maneira como olhavam de volta para mim. Era tudo demasiado familiar. No acampamento contavam-se histórias de como as mulheres quando partem para as hortas, passam primeiro na floresta e entregam os seus bebés aos bonobos, para que tomem conta deles, até que elas voltem do trabalho. Eles são como nós, costumavam dizer os guias enquanto descreviam os comportamentos dos animais na floresta.

África (conceito geográfico) é o berço da Humanidade. Foi lá que apareceu o primeiro primata que viria a dar origem aos gorilas, chimpanzés, bonobos, outras espécies de hominídeos e a nós. Enquanto observava e seguia bonobos na floresta, não consegui desatar esse nó, criado pela história da evolução da vida, entre mim e eles. Enquanto ouvia histórias à volta da fogueira, não consegui deixar de romantizar o tempo em que surgiram estas histórias, que nos lembram de como ainda estamos ligados à natureza. Há algo muito antigo que nos liga ao continente. Sejam as pessoas ou os animais que nele habitam, há uma história sobre nós (Humanidade) que nunca me deixa sentir só. Entre mim e África há um nó que ninguém separa. Voltar ao continente africano é como voltar a casa.
Aventura-te e ruma ao desconhecido com a The Wanderlust!
Todas as fotografias são da autoria de Wilson Vieira
